SAÚDE

O motivo silencioso que faz mulheres acima dos 45 não dormirem como antes

A ginecologista Dra. Helena Furtado revela como as mudanças hormonais da perimenopausa afetam a arquitetura do sono — e o que fazer para reconquistar noites reparadoras sem recorrer a remédios pesados.

Por Mariana Soares · Atualizado em 14 de maio de 2025 · 8 min de leitura
O motivo silencioso que faz mulheres acima dos 45 não dormirem como antes
Dra. Helena Furtado atende pacientes em seu consultório no bairro Jardins, São Paulo — onde ouve as mesmas queixas toda semana.

Você deita, fecha os olhos, mas a mente dispara. Acorda às três da madrugada sem motivo aparente. Ou então passa a noite inteira virando de lado, enquanto o marido ronca tranquilo ao lado. Se isso soa familiar e você está na faixa dos 45, 50 anos, pode ter certeza: você não está sozinha — e não está ficando louca.

A Dra. Helena Furtado, ginecologista com mais de quinze anos de consultório em São Paulo, ouve essa história pelo menos três vezes por semana. 'A paciente chega dizendo que tentou melatonina, chá de camomila, aplicativo de meditação. Nada resolve. Aí eu pergunto: quando foi sua última menstruação? E a ficha cai', conta ela, com a franqueza de quem já viu esse cenário se repetir centenas de vezes.

O que a maioria das mulheres não sabe é que o sono é um dos primeiros domínios a sentir o impacto da perimenopausa — aquele período de transição hormonal que pode começar até dez anos antes da menopausa propriamente dita. Estrogênio e progesterona despencam de forma irregular, e o corpo simplesmente não sabe mais quando desligar.

'O estrogênio tem papel direto na regulação da temperatura corporal e na produção de serotonina, que depois vira melatonina — o hormônio do sono. Quando ele oscila, a mulher acorda suando, com palpitação, ansiosa. E isso vira um ciclo', explica a médica. Não é frescura. Não é falta de fé. É bioquímica pura.

Segundo um estudo da Associação Brasileira do Sono, cerca de 60% das mulheres entre 45 e 55 anos relatam insônia crônica ou fragmentação do sono. Muitas acham que é só cansaço acumulado, pressão do trabalho, filhos adolescentes. Mas quando investigam com atenção, descobrem que o corpo está pedindo ajuda de outra forma.

'Eu mesma passei por isso', confessa Helena. 'Comecei a acordar toda noite às duas da manhã, como se tivesse um despertador invisível. Fui investigar e vi que meu ciclo estava encurtando, meu humor oscilando. Foi quando entendi na pele o que minhas pacientes vinham me dizendo há anos.'

A boa notícia é que existe caminho. Não se trata de aceitar passivamente ou esperar a menopausa passar. A Dra. Helena orienta um protocolo simples, mas consistente, que ajuda a reorganizar o ritmo circadiano e a preparar o corpo para um descanso real. Ela chama de 'as três âncoras do sono feminino'.

  • Horário fixo para deitar e levantar, mesmo nos finais de semana — o corpo precisa reaprender a antecipar o repouso.
  • Redução radical de telas após as 21h — a luz azul bloqueia melatonina justamente quando ela deveria subir.
  • Suplementação orientada de magnésio e, em alguns casos, reposição hormonal de baixa dose — sempre com acompanhamento médico.

'Não existe bala de prata. Mas quando a mulher entende que não é falha moral nem falta de disciplina, ela para de brigar com o próprio corpo e começa a cuidar dele de verdade', diz Helena. E é aí que o sono volta — não da noite pro dia, mas aos poucos, com consistência.

A espiritualidade também entra nessa equação, embora de uma forma menos óbvia. Como diz Salmos 127:2, 'Inútil vos será levantar de madrugada, repousar tarde, comer o pão que penosamente granjeastes: aos seus amados, Deus dá enquanto dormem'. Há um convite bíblico ao descanso — e isso inclui entender que cuidar do corpo é honrar o projeto de Deus para nós.

'Muitas das minhas pacientes cristãs chegam com culpa, achando que não orar o suficiente ou não confiar em Deus está causando a insônia. Eu digo: ore, sim. Mas também procure ajuda médica. Deus nos deu ciência, nos deu hormônios, nos deu o corpo como templo. Cuidar dele não é falta de fé — é obediência', pontua Helena.

Renata, 48 anos, publicitária e mãe de dois, conta que demorou quase dois anos para procurar ajuda. 'Eu achava que era só fase, que ia passar. Mas comecei a ter lapsos de memória no trabalho, irritação com tudo, ganho de peso. Quando finalmente fui na ginecologista e ela pediu exames hormonais, tudo fez sentido.' Hoje, Renata dorme seis horas seguidas — algo que parecia impossível há um ano.

O corpo feminino é sábio, mas também é complexo. Ele fala — às vezes aos gritos, às vezes em sussurros noturnos. E quando a gente para pra escutar, sem julgamento, sem culpa, sem pressa, ele também ensina o caminho de volta. O sono pode voltar. A paz pode voltar. Basta a coragem de olhar pra dentro e pedir ajuda quando necessário.