Pastor brasileiro vai a debate público e fala sobre liberdade religiosa nas escolas
Quando a fé entra na conversa escolar, a gente precisa entender os limites, os direitos e o papel da família cristã nesse debate delicado.

Na quinta-feira passada, um vídeo de pouco mais de três minutos começou a circular nos grupos de WhatsApp de mães cristãs de São Paulo, depois ganhou Twitter, Instagram e, finalmente, virou matéria em portais de notícia. A cena: um pastor evangélico, convidado para um debate público sobre educação, levanta a mão e pergunta por que as escolas municipais podem falar sobre qualquer coisa, menos sobre Deus. A plateia se divide — metade aplaude, metade vaia. E a gente, que acompanhou tudo de longe, fica com aquela pergunta martelando: afinal, onde fica o limite entre liberdade religiosa e ensino laico?
O pastor em questão se chama Elias Carvalho, líder de uma igreja em Guarulhos e pai de três filhos. Ele foi chamado para participar de uma audiência pública sobre o novo currículo da rede estadual de ensino. No microfone, disse que não queria impor culto nas salas de aula, mas que achava injusto que valores cristãos fossem tratados como 'ultrapassados' ou 'intolerantes' pelos materiais didáticos. 'Meu filho de dez anos chegou em casa perguntando se era errado a gente orar antes do almoço', contou ele, emocionado. A fala durou dois minutos. A repercussão, uma semana inteira.
O que aconteceu depois disso? Depende de quem você pergunta. Para uns, o pastor foi corajoso e deu voz a milhares de famílias que se sentem desrespeitadas. Para outros, ele confundiu liberdade religiosa com imposição de crença num espaço plural. E no meio desse fogo cruzado estão as famílias cristãs — a gente — tentando criar filhos que amem a Jesus, mas que também saibam conviver com diferenças.
A Constituição brasileira é clara: o Estado é laico, mas garante liberdade de culto e de consciência. Isso significa que nenhuma religião pode ser privilegiada nas escolas públicas, mas também que ninguém pode ser impedido de expressar sua fé. O problema começa quando a teoria vira prática. Criança pode levar Bíblia na mochila? Pode orar antes da prova? O professor pode falar sobre Páscoa além dos ovos de chocolate? Essas perguntas não têm respostas simples, porque envolvem interpretação, contexto e, principalmente, respeito mútuo.
Tem uma passagem que me vem à cabeça sempre que penso nesse assunto. É quando Jesus diz, em Mateus 22:21 — 'Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus'. Ele estava falando de imposto, mas o princípio vale: existem esferas diferentes na vida, e a sabedoria está em saber transitar entre elas sem perder a essência. A escola pública é de César — ou seja, do Estado, plural, diversa. Mas a formação espiritual, essa é de Deus — e cabe à família, à igreja, à comunidade de fé.
Conversei com três mães evangélicas que acompanharam o caso. Todas disseram, cada uma à sua maneira, a mesma coisa: 'Eu não quero que a escola ensine doutrina pro meu filho, mas também não quero que ela ensine que a fé é algo a ser escondido'. Uma delas, a publicitária Renata Lopes, de 42 anos, contou que o filho de oito foi repreendido por uma professora ao falar que Deus criou o mundo. 'Ela disse que aquilo era 'só uma crença', com um tom de desprezo', relatou Renata. 'Ele voltou pra casa achando que acreditar em Deus era coisa de gente ignorante.'
Esse é o ponto nevrálgico: laicidade não significa apagar a religião da conversa, mas garantir que todas tenham espaço — sem hierarquia, sem constrangimento. Quando uma criança evangélica é ridicularizada por sua fé, isso viola a liberdade religiosa tanto quanto obrigar um ateu a rezar o Pai-Nosso. O respeito precisa ser a régua dos dois lados. E isso exige maturidade, diálogo e, principalmente, educação — no sentido mais profundo da palavra.
Então, o que a gente faz? Como pais e mães cristãos, como agimos nesse cenário onde tudo parece polarizado? Algumas pistas práticas podem ajudar:
- Converse com seus filhos sobre a diferença entre fé pessoal e espaço público, ensinando que amar a Deus não significa impor Deus aos outros.
- Acompanhe o que está sendo ensinado na escola, não para brigar, mas para entender e dialogar quando necessário.
- Fortaleça a fé em casa e na igreja, porque a escola sozinha nunca foi — e nunca vai ser — responsável pela formação espiritual.
- Ensine empatia: mostre que respeitar outras crenças (ou a ausência delas) não enfraquece a nossa fé, mas a torna mais madura.
- Dialogue com os educadores de forma respeitosa, sem acusações, buscando parceria e não confronto.
O pastor Elias Carvalho disse, no final da sua fala, algo que muita gente não viu porque o vídeo foi cortado: 'Não quero privilégio. Quero dignidade'. E talvez seja essa a palavra-chave. Dignidade para crer, para expressar, para educar os filhos nos valores que a gente acredita — sem medo, mas também sem arrogância.
A questão da liberdade religiosa nas escolas não vai se resolver com um vídeo viral, nem com uma audiência pública, nem com um artigo de blog. Ela se resolve todo dia, na sala de aula, na mesa de jantar, no grupo de WhatsApp das mães, quando escolhemos o diálogo em vez do grito. Quando optamos por ensinar nossos filhos a serem sal e luz — não impondo sabor nem ofuscando os outros, mas temperando e iluminando com graça.
Se você é mãe ou pai cristão, saiba disso: sua fé não precisa de blindagem, precisa de raiz. E raiz se faz em casa, na intimidade, no exemplo diário. A escola vai desafiar, o mundo vai questionar, as pessoas vão discordar — e tudo bem. Porque fé de verdade não tem medo de conviver com a diferença. Ela cresce justamente ali, no terreno pedregoso, onde somos chamados a amar mesmo quem pensa diferente.